Artigo original: Brain anatomy differences in childhood stuttering Soo-Eun
Chang, Kirk I. Erickson, Nicoline G. Ambrose, Mark A. Hasegawa-Johnson and
Christy L. Ludlow NeuroImage
39 (2008) 1333-1344 Disponível online: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2731627/pdf/nihms-45511.pdf
Desde 1928,
o estudo da gagueira contava com um modelo neurofisiológico, ou seja, uma
explicação da gagueira baseada no funcionamento cerebral. Este modelo, de
autoria de Travis e Orton, especulava que a gagueira seria o resultado do
conflito entre os dois hemisférios cerebrais no controle da fala.
Muitos anos
após, a ciência evoluiu de tal maneira que contamos com exames extremamente
sofisticados que permitem analisar a estrutura e o funcionamento cerebral de
modo minucioso. A princípio, o grau de invasão desses exames era tal que, compreensivelmente,
as crianças eram preservadas e não eram consideradas disponíveis para a
realização dessas pesquisas.
Assim,
foram sendo obtidos inúmeros achados de grande vulto na gagueira dos adultos. A
constatação da assimetria cerebral já era um conhecimento anterior: a maioria
das pessoas tem a região correspondente à fala mais desenvolvida no hemisfério
esquerdo quando comparado com o hemisfério direito. Exames específicos
comprovaram que nas pessoas que gaguejam havia uma reversão na assimetria direito-esquerda,
ou seja, nestas, o hemisfério direito se mostrava mais ativo que o esquerdo nas
atividades relacionadas à fala. Além disso, foi evidenciada a existência de
alterações na substância branca do hemisfério esquerdo das pessoas que gaguejam
em comparação com os sujeitos fluentes.
Todos esses
achados comprovaram a presença de alterações cerebrais nas pessoas que gaguejam
em relação aos fluentes, mas permanecia uma dúvida importante: essas alterações
seriam a causa da gagueira ou seriam consequência dela? Estudos em crianças
poderiam nos informar melhor a respeito, pois caso as crianças que gaguejam
apresentassem as mesmas alterações encontradas nos adultos que gaguejam isto
significaria que essas alterações estariam na base da dificuldade de fluência.
Caso os resultados comparativos entre adultos e crianças fossem diferentes, a
indicação seria de modificações cerebrais surgidas provavelmente em decorrência
da própria gagueira.
Com o
avanço atual dos exames de neuroimagem, a avaliação de crianças já é viável,
sem utilização de contrastes, sem procedimentos dolorosos ou prejudiciais ao
seu bem-estar. O estudo realizado por Chang e sua equipe (2008) analisa meninos
americanos destros entre 9 e 12 anos. Eles conseguiram uma amostra de oito
crianças com gagueira persistente, sete crianças com gagueira recuperada
(crianças que gaguejaram durante um período de sua vida e, posteriormente,
atingiram um patamar normal de fluência) e sete crianças controle. O número de
crianças analisadas foi pequeno devido à refinada seleção que foi feita,
excluindo qualquer fator que pudesse alterar os resultados.
As crianças
ficavam deitadas, com almofadas ao seu redor para manter a posição da cabeça
imóvel, assistindo a um filme de sua escolha, com duração de trinta minutos,
utilizando fones de ouvido enquanto o exame era realizado pelos aparelhos. Através da morfometria baseada em voxel e da imagem
por tensor de difusão foram analisados o volume de substância cinzenta e a
anisotropia fracionada da substância branca em regiões cerebrais relacionadas à
fala.
Parte dos
achados foi semelhante aos encontrados nos estudos anteriores com adultos que
gaguejam:
- tanto o grupo com gagueira
persistente como recuperada apresentavam um volume reduzido de substância
cinzenta em relação ao grupo fluente nas regiões importantes para a fala - o grupo com gagueira persistente
apresentou alterações na substância branca das regiões motoras do hemisfério
esquerdo relacionadas ao rosto e laringe.
Parte dos achados foi diverso do
encontrado nos estudos anteriores com adultos que gaguejam quando comparados
tanto com as crianças com gagueira recuperada como com gagueira persistente:
- não foi
encontrado aumento do volume no hemisfério direito nas regiões importantes para a fala - não foi
encontrada reversão da assimetria direito-esquerda.
O risco
para gagueira na infância foi associada:
- na gagueira recuperada e a
persistente: com deficiências no volume da substância cinzenta do hemisfério
esquerdo - na gagueira persistente: com redução
da integridade da substância branca no hemisfério esquerdo nas regiões
importantes para a fala
Os autores concluem que os aumentos
anatômicos no hemisfério direito nos adultos que gaguejam podem ser o resultado
de uma vida inteira às voltas com a gagueira.
Em síntese,
podemos dizer que parte das diferenças anatômicas cerebrais já se encontra
presente em crianças que gaguejam por volta dos seus nove anos de idade,
enquanto outras alterações vão surgindo no decorrer da vida do indivíduo que
gagueja, talvez em decorrência da própria gagueira.
Pequeno resumo em Power-Point com introdução dos conceitos básicos: aqui
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