A gagueira é uma alteração no ritmo da fala que, apesar de registros
muito antigos já se referirem à sua existência, persiste na
atualidade, incidindo em 1% da população e constituindo uma das mais
complexas áreas de atuação do fonoaudiólogo. Muito conhecimento foi
adquirido a respeito desse distúrbio no decorrer dos anos, mas ainda
existem questões sem resposta, o que dificulta o trabalho do
fonoaudiólogo clínico.
Os pesquisadores nos fornecem muitas informações sobre gagueira, sob diferentes
enfoques: genético, neurológico, audiológico, corporal, linguístico,
emocional, social e psicomotor. Temos uma série de livros publicados
na área, muitos sites, algumas associações e grupos de discussão
sobre o tema. Cabe ao fonoaudiólogo clínico tomar ciência desses
trabalhos e utilizá-los de modo proveitoso para seu paciente, o que
não constitui tarefa simples. É preciso ter em mente que os
objetivos próprios à pesquisa tradicional científica, seus métodos,
sua especificidade, sua busca de generalizações, fazem contraponto
ao trabalho clínico que tem por finalidade a terapêutica de um
indivíduo único, com todas suas peculiaridades. Por outro lado,
relatos de caso, depoimentos pessoais, formulações baseadas em
limitadas vivências na área, apesar de enriquecerem muito nossa
visão, não podem ser tomadas como verdades universais. Há que se ter
dedicação, estudo, análise e crítica, para selecionar as
informações, reformular os conceitos e personalizá-los.
Inicialmente, é preciso considerar que uma queixa e/ou constatação de
ruptura de fluência precisa ser analisada cuidadosamente para
determinar sua abordagem, uma vez que temos disfluências
transitórias e persistentes, gagueira do desenvolvimento, gagueira
do desenvolvimento que persiste, taquifemia, gagueira psicogênica e
neurogênica. É importante ainda estarmos atentos a outras possíveis
alterações concomitantes de fala e/ou linguagem.
É preciso também considerar as peculiaridades relacionadas ao local
de atendimento (consultório ou ambulatório), à faixa etária do
paciente e à modalidade de atendimento (individual ou grupal), que
terão interferência direta na escolha da abordagem terapêutica.
Desde a entrevista inicial com o paciente (e com os seus pais, no
caso de crianças) já é necessário buscar pelo conhecimento amplo da
sua individualidade, de sua queixa e dos possíveis fatores que
perturbam sua comunicação. A avaliação, que entendo como uma
constante que ocorre durante todo o processo terapêutico, tem como
finalidade adequar cada vez mais a interação terapeuta-paciente,
de modo a facilitar o percurso em direção a uma comunicação mais
eficaz.
Com finalidade didática e para facilidade de análise, sintetizo,
dizendo que norteio a abordagem terapêutica da criança e do
adolescente baseada no enfoque psicomotor, psicolinguístico, da
fluência e de interações com pais e professores. O intuito é
abordar, de modo interligado, essas diversas vertentes da
comunicação e acompanhar sua evolução nos demais ambientes que não
o clínico.
Para o adulto, considero mais prático que a denominação seja feita
em termos de enfoque objetivo e subjetivo, compreendendo os mesmos
aspectos - psicomotor, psicolinguístico e fluência - abordados em
suas manifestações externas e em suas vivências internas, buscando a
coesão do indivíduo no momento da comunicação.
As metas terapêuticas também são específicas a cada paciente:
trata-se de um delicado equilíbrio entre ampliar a possibilidade de
superar a dificuldade e a constatação da necessidade de aceitá-la.
Buscamos sempre a fluência, mas em alguns casos teremos que focar
nosso objetivo na diminuição da ocorrência das rupturas de fala ou
mesmo na redução da interferência da dificuldade na vida do
indivíduo. Assim, alta pode ser sinônimo de fluência espontânea, de
fluência controlada ou de gagueira aceitável [1]. Para o
paciente adulto, alta significa conhecimento de suas dificuldades,
possibilidade de lidar com elas, responsabilização por sua fala e
sua comunicação, desejo de seguir sozinho e segurança em suas
possibilidades.
A manutenção da fluência obtida é mais um fator a ser trabalhado,
tanto pelo paciente em sua vida diária, como em encontros
esporádicos com o fonoaudiólogo.
Temos acompanhado na mídia a divulgação de críticas direcionadas aos
atendimentos não especializados em gagueira e que trazem embutida a
depreciação do trabalho fonoaudiólogico e o recrudescimento da
infeliz consideração de que gagueira é algo hilariante, o que
fragiliza a pessoa que gagueja, adicionando maiores dificuldades à
sua comunicação.
Só através de nossos esforços conjuntos poderemos compreender melhor
a questão da gagueira, reformular a visão social deturpada que
existe sobre ela e atuar de maneira preventiva eficaz, fortalecendo
cada vez mais a visão da Fonoaudiologia como uma área séria,
competente e cientificamente embasada. Será um bom começo excluir de
vez do arsenal de conhecimentos a idéia ultrapassada de que gagueira
na infância é algo a ser postergado em seu atendimento. A análise
inicial cuidadosa e, caso necessário, o acompanhamento
fonoaudiológico especializado poderá facilitar a comunicação dessa
parcela de nossa população que é perturbada pelas rupturas na fala.
[1] GUITAR, Barry. Stuttering: an integrated approach to its nature and treatment - Baltimore:Williams &
Wilkins, 1998. 2nd edition.
Obs: foram feitas algumas pequenas correções neste texto, em relação ao original publicado no site citado acima.
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