A Fonoaudiologia consiste na ciência que tem por objeto o estudo da comunicação e seus distúrbios [1].
Dentro dessa área de atuação, tão vasta, temos atualmente sete áreas de
especialidade: Audiologia, Disfagia, Fonoaudiologia
Escolar-Educacional, Linguagem, Motricidade Orofacial, Saúde Coletiva e
Voz.
FONOAUDIOLOGIA - Áreas de Especialidade
Como cada uma dessas especialidades ainda abrange várias alterações da
comunicação, encontramos profissionais que buscam subespecializações. Dentro da
área da Linguagem, temos, entre outros, os profissionais que se dedicam
especificamente aos Distúrbios de Fluência, estudando mais a fundo as ocorrências
de fala nas quais o ritmo se encontra alterado. Em determinados textos
científicos, essa subárea recebe o nome de Disfemia.
Existem alguns
tipos de Distúrbios da Fluência. Temos em seguida a apresentação de um
tradicional quadro de classificação desses distúrbios, organizado por um
consagrado estudioso, Godfrey Arnold, em 1965 [2]. Logo após veremos como esta
listagem foi intrinsecamente modificada com os novos conhecimentos surgidos
desde então.
CLASSIFICAÇÃO DE ARNOLD (1965)
(1) disfemia taquifêmica: de causa orgânica, hereditária, resultado
de uma inabilidade de linguagem congênita. Intervenções inadequadas ou ambiente
desfavorável podem trazer, como reação secundária, uma gagueira. (2) gagueira
sintomática: associada à disartria, causada por lesões cerebrais como as
decorrentes de problemas no parto, incompatibilidade de Rh, encefalite ou
trauma craniano acidental. No adulto, como decorrência de determinados danos
cerebrais, pode surgir a gagueira afásica. Existe ainda a palilalia
relacionada a distúrbios extrapiramidais e a disartria iterativa
resultante de lesões cerebelares.
(3) gagueira
desenvolvimental: relacionada a tendências psiconeuróticas familiares. As
explicações psicológicas da gagueira são as mais apropriadas nestes casos, que
são numericamente frequentes. Uma propensão psíquica similar deve ser
considerada para os casos de imitação de gagueira e gagueira temporária durante
a puberdade. Todas estas formas de gagueira, que podem ser explicadas por
fatores psicológicos, encaixam-se bem no grupo de disfemia idiopática ou
disfemia genuína.
(4) gagueira
fisiológica ou disfluência: imaturidade linguística normal até o 3º ou 4º
ano de vida. Na visão semantogênica de Johnson, esta disfluência pode se
transformar em gagueira se o meio intervier inadequadamente.
(5) gagueira
traumática: passível de ser entendida somente através de avaliação
psiquiátrica. É decorrente de um colapso do controle neurovegetativo em uma
pessoa que anteriormente apresentava uma boa condição psicossomática. Pode
surgir em decorrência de situações extremamente estressantes, como experiências
traumáticas em períodos de guerra, por exemplo.
(6) gagueira
histérica : embora os sintomas sejam semelhantes aos da gagueira
traumática, a etiologia é diferente. Esta gagueira é uma reação de conversão
que afeta indivíduos que apresentam uma psicopatia constitucional.
CLASSIFICAÇÃO ATUAL
Na atualidade,
dentro desta terminologia de Arnold para a subdivisão dos Distúrbios da
Fluência, são mais aceitos os termos:
(1) taquifemia (ao invés de disfemia taquifêmica). Informações
complementares em taquifemia
(2) gagueira neurogênica (em vez de gagueira sintomática). Você pode obter mais informações em gagueira neurogênica.
(3) gagueira do desenvolvimento (ao invés de gagueira desenvolvimental).
Este tópico é descrito mais detalhadamente em gagueira
(4) disfluência (o termo "gagueira fisiológica" caiu em
desuso, uma vez que esta não é uma ocorrência típica ao desenvolvimento de
fala de todas as crianças). Obtenha mais informações em disfluência.
(5) não temos estudos recentes que justifiquem a utilização do termo gagueira
traumática, embora cada relato de paciente nos leve a investigar melhor sua
história, buscando elucidar melhor o ocorrido e verificar a presença de
eventuais fatores predisponentes à gagueira.
(6) gagueira psicogênica (em lugar do termo
gagueira histérica). Encontre mais informações em gagueira psicogênica
Por surgirem após a linguagem e a
fluência já se encontrarem bem estabelecidas, tanto a gagueira psicogênica como
a gagueira neurogênica são categorizadas como gagueira adquirida.
SINTETIZANDO
Os Distúrbios da Fluência compreendem as Gagueiras e a Taquifemia. As
Gagueiras podem ser divididas em Gagueira do Desenvolvimento e Gagueiras
Adquiridas. Estas por sua vez podem ser classificadas em Gagueira Neurogênica e
Gagueira Psicogênica.
COMENTÁRIOS
É importante frisar que
os estudos atuais têm constatado a presença de alterações genéticas e
neurológicas nos portadores de gagueira do desenvolvimento, de modo que estas
características, que eram vistas como pertencendo à taquifemia, agora não são
mais consideradas como critério de diferenciação entre estes dois tipos de
Distúrbios de Fluência. Por outro lado, algumas das injúrias que ocorrem bem no
início do desenvolvimento infantil e que nos conduziriam a classificar o
distúrbio de fala decorrente como uma gagueira neurogênica, podem ser causas
subjacentes à gagueira do desenvolvimento, sendo necessários maiores estudos
para elucidar estes achados.
Após tantos anos sob a influência dos conceitos derivados da teoria
diagnosogênica (ou semantogênica) de Johnson, sua visão - de que uma
disfluência pode se transformar em gagueira - passou a ser desconsiderada em
decorrência dos achados das pesquisas mais atualizadas que evidenciarem
diferenças no funcionamento cerebral nas pessoas que gaguejam. Isto, embora
tenha o valor tão significativo de constatar que os pais não são culpados pela
gagueira que seus filhos apresentam, não invalida o efeito positivo das
atitudes que efetivamente favorecem o desenvolvimento da fluência.
Temos ainda, como outro grande divisor de águas, a constatação de que a
eventual alteração emocional é uma consequência - e não a causa - da gagueira
do desenvolvimento.
[1] http://www.fonoaudiologia.org.br/publicacoes/epdo1.pdf - pg 5 [2]
LUCHSINGER, Richard e ARNOLD, Godfrey E. Voice-Speech-Language.
Clinical Communicology: Its Physiology and Pathology. Wadsworth
Publishing Company. California. 1965
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