A adolescência, de
um modo geral, é vista como uma fase turbulenta, de grandes desacertos entre um
corpo praticamente adulto e uma mente ainda não totalmente amadurecida. Aquela
criança de pouco tempo atrás vai deixando de existir, ou melhor, vai sendo
absorvida por um novo modo de ser, repleto de novidades e possibilidades.
Muitas modificações surgem na adolescência, grande parte delas arrebatadoras,
difíceis de lidar devido à inexperiência de conviver com as mesmas. Se, normalmente,
na infância o indivíduo conta com a presença de um adulto por perto para lhe
dar diretrizes, na adolescência, por suas características intrínsecas, ele
começará sua tentativa de seguir sozinho. Afinal, esta fase é um treino inicial
de independência. A gagueira, para estes jovens, pode ser mais uma questão
complexa ou então uma velha - e em geral, não muito querida - companheira.
Pela sua própria definição, a gagueira do desenvolvimento surge na primeira
infância e para cerca de um quarto desta população continuará presente no
decorrer da vida, a menos que já tenha sido trabalhada anteriormente. É
comum que a gagueira que se manifesta na adolescência seja na
realidade a evidenciação de uma dificuldade anterior, que irrompe mais visível
em uma época em que o mundo precisa refazer seu sentido aos olhos do
adolescente. Importantes modificações hormonais e cerebrais estão ocorrendo
neste período [1] e algumas delas poderão afetar ainda mais desfavoravelmente o
ritmo da fala.
No que se refere à terapia de fala, o adolescente era visto como um grande
problema, uma vez que as técnicas de trabalho que existiam
eram direcionadas apenas às crianças ou aos adultos. Os novos estudos, com
abordagens específicas para esta faixa etária, vieram desmitificar a ideia de
que a adolescência seria uma fase na qual tantas questões vêm tomar espaço na
mente do indivíduo que a terapia de gagueira ficaria em segundo plano, sem
possibilidades de ser efetuada a contento.
Podemos considerar que o adolescente que gagueja - pessoa em trajeto da
infância para a vida adulta - apresenta características que constituem
uma mescla das que encontramos nas demais categorias de idade citadas.
Em parte, isto é verdade. O adolescente que gagueja tem ainda uma boa dose de
labilidade, de flexibilidade da infância, enquanto o adulto já mostra maior dificuldade
de efetuar modificações. Ao mesmo tempo, o adolescente tem uma motivação que
lhe permite um empenho diverso daquele que, de modo geral, uma criança
apresentaria. Quando estas duas características benignas estão presentes, o
trabalho costuma surtir um efeito muito positivo. Assim, temos em nossa
experiência clínica a constatação de que adolescentes que efetivamente se
sentem motivados a trabalhar sua fluência, desabrocham em inúmeros sentidos, de
modo aparentemente simples quando comparados com as demais faixas etárias. Eles
aprendem a se colocar melhor ante os demais, a enfrentar suas limitações, a
encontrar a segurança dentro de sua fragilidade, a perceber de modo mais realista
a comunicação com seus companheiros e familiares. Se a adolescência é a
fase de se definir, a terapia fonoaudiológica tem instrumental para contribuir
com este processo.
Por outro lado, é essencial valorizar o adolescente com suas características
específicas, tão diversas daquelas da infância e da idade adulta. É vital buscar
estar atualizado para poder conversar com ele de modo efetivo, inclusive
reconhecendo os inúmeros aspectos nos quais ele nos supera. Através de
uma interação honesta e plena podemos atingi-lo mais facilmente, entendendo a
razão de suas defesas e deixando que ele se exponha na medida das suas
possibilidades. O respeito mútuo fornece as bases de um trabalho terapêutico
amplo e de qualidade.
PARA OS PAIS
Boa parte das orientações fornecidas no final do texto Gagueira Infantil
também são válidas para o adolescente, com os ajustes adequados à sua idade.
Entre estas adequações temos que os pais podem sugerir ao adolescente que faça
um tratamento, mas devem ter sua permissão antes de procurar um profissional. O
real interesse dele em fazer uma terapia é que permitirá um bom resultado.
Seja qual for a decisão dele, facilite sua comunicação com algumas outras
diretrizes como: não completar suas palavras ou frases e não dar conselhos a
respeito de sua fala. Fique atento à questão das zombarias e provocações dos
outros irmãos ou adolescentes em geral, passíveis de acontecer nesta faixa etária. Isto pode
trazer perturbações emocionais e até mesmo físicas ao seu filho, quando consideramos o bullying.[2]
Estimule-o a desenvolver outras habilidades, sejam esportivas, musicais,
sociais ou culturais. Forneça a ele oportunidade de participar de outras
atividades além das escolares, de modo a ampliar suas possibilidades de
contato. Olhe-o com olhos generosos, que leva em consideração o fato de que ele
ainda está se construindo como pessoa e fortaleça sua auto-estima com
comentários honestos a respeito de suas características positivas e com
ponderações verdadeiramente maduras sobre comportamentos que deixam a
desejar.
As orientações voltadas aos pais quando se trata de crianças pequenas podem ser
resumidas na palavra cuidados que devem ser tomados para evitar prejudicar e
também para favorecer a evolução benigna de sua fala. Quando se
trata do adolescente, a palavra em questão é respeito. Poucos conseguem
atinar a miríade de sentimentos que podem povoar o mundo de uma pessoa que
gagueja. É difícil captar quantos entraves encontra um jovem que tem rupturas
em sua fala e se depara constantemente com situações novas e
desafiadoras. Respeite! Seu filho está dando seus primeiros passos em direção à vida adulta e a aceitação por parte de seus pais é muito significativa para ele, especialmente neste momento.
PARA OS PROFESSORES
Na página TEXTOS, temos, como um dos subtítulos de acesso: Professor. Nesse
Power Point focamos todas as faixas etárias. Aqui, vamos frisar e
complementar algumas sugestões mais diretamente voltadas para o adolescente.
RECONHEÇA O ALUNO QUE GAGUEJA:
1.Muitos alunos que gaguejam se esmeram em estudar e
tirar boas notas para poder fugir de questionamentos e dos temidos seminários.
É mais fácil para eles dizerem “"não sei”", até para questões básicas, do
que se expor falando, correndo o risco de gaguejar em frente à classe.
2.Grande parte deles se mantém isolada ou apenas
acompanham algum grupo, quase sem conversar com os colegas.Outros
assumem um papel oposto, são barulhentos e falam imitando algum personagem (uma vez que assim
fazendo conseguem falar fluentemente).
3.As dificuldades relacionadas à
situação de fala variam entre as pessoas que gaguejam. Alguns têm mais
dificuldade em ler, outros em responder questões. Verifique como é isto
para seu aluno em questão.
ATUE DE MODO A FACILITAR A COMUNICAÇÃO DO ALUNO QUE GAGUEJA:
4.Mantenha sua naturalidade ao
falar com o adolescente que gagueja. Sabendo da seriedade deste quadro,
brincadeiras estão totalmente fora de cogitação.
5.Evite completar o que ele está
tentando dizer, a menos que ele tenha lhe solicitado algo diferente.
6.Ouça atentamente, mantendo o
contato de olhar.
7.Se sentir que sua empatia com
este aluno lhe permite se aproximar mais, fale com ele em particular e pergunte
se há algo que pode fazer para facilitar sua comunicação.
8. Podendo conversar com ele, encaminhe-o
a um fonoaudiólogo especializado em fluência, caso exista esta possibilidade.
9.A chamada de presença costuma ser
o terror para a maioria deles ou então as apresentações em início de ano letivo
quando precisam dizer seu nome. São situações de fala curta, mas extremamente
constrangedoras para quem gagueja. Se puder, crie alternativas.
10.Precisando fazer chamada oral, questione em segundo
ou terceiro lugar seu aluno que gagueja, a espera aumenta muito a ansiedade e
torna sua fala mais difícil.
11.Se for possível fazer os seminários para pequenos
grupos, isto pode facilitar a fala do aluno que gagueja e lhe dar mais
confiança para se expor para a classe toda futuramente.
12.Leitura em duplas ou leitura coral facilita a fala
de quem gagueja e é um ótimo treino para a classe.
TRABALHE A QUESTÃO COM A CLASSE:
13.A atitude do professor transmite aos alunos a importância de respeitar
as dificuldades específicas de cada um.
14.Oriente a classe como um todo sobre as boas
maneiras da comunicação: falar devagar, em tom natural, olhar para quem fala,
esperar o outro terminar sua fala antes de iniciar a sua, procurar ser sucinto
e direto.
15.Oriente a classe toda para que respondam calmamente. Faça a este seu
aluno que gagueja perguntas que possam ser respondidas com menor quantidade de
fala. De preferência, formule as questões para todos, antes de solicitar que
alguém responda. Isto fará com que toda a classe pense na resposta e que tenham
tempo de elaborar algo.
16.Se a fala do aluno que gagueja não é compreendida pelo restante da
turma, repita o que ele disse, concordando com o que ele falou ou mesmo
corrigindo com suavidade o que foi dito.
17.Mantenha-se atento para as ocorrências de bullying[2], de modo geral, e
mais especificamente quando relacionados ao aluno que gagueja, uma vez que 59%
das crianças que gaguejam referem ser ridicularizadas e 56% referem que isto
ocorre uma vez por semana[3]. Este aluno precisará de alguém que
norteie o comportamento do grupo, caso contrário os efeitos podem ser
desastrosos.
18.Obviamente nem tudo depende
do professor, mas se este tiver oportunidade de auxiliar, poderá ajudar a transformar um período de vida conturbado em uma experiência muito positiva
para o adolescente.
LIVRETO SOBRE GAGUEIRA DIRECIONADO AOS ADOLESCENTES
Ensaio sobre a gagueira - Eliana Maria Nigro Rocha e Paulo Amaro Martins. Ilustrações: Andrea Marquezi Odri
[1] Herculano-Houzel, Suzana. O cérebro em transformação. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.
[2] http://www.bullying.com.br/BConceituacao21.htm. Acessado em 28.08.10
[3] Langevin, Bortnick, Hammer & Wiebe, 1998 e Langevim, 2000 citados em Bullying and Teasing: helping children who stutter. USA:
National Stuttering
Association, 2004
Veja informações mais gerais sobre este tópico em GAGUEIRA.
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