GAGUEIRA INFANTIL


AQUISIÇÃO E DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM

    Quantas vezes nos deparamos, encantados, com o processo de aquisição de linguagem de uma criança!
     
   
    Quando aquele bebê tão silencioso, que só se comunica com choro, começa a emitir seus sons iniciais, na fase do gorjeio, já é uma festa para os que acompanham seu crescimento. Na verdade, antes mesmo, seu olhar e seu sorriso já traziam para os adultos a percepção de que ele começava a se comunicar.

    Ao surgir a fase do balbucio então, é um deleite! Aquelas sílabas repetidas interminavelmente soam extremamente bem e as pessoas nem estão cientes da importância delas. Além de constituírem um treino lúdico e prazeroso da articulação, sinalizam que esta criança ouve a si mesma e assim pode verificar o efeito de sua emissão, repetindo-a e, aos poucos, podendo fazê-lo de forma cada vez mais aperfeiçoada.

    Logo surgem as primeiras palavras, em geral, mais interpretadas como tal do que efetivamente emitidas, mas que também seguem em aprimoramento e, lentamente, começam a ser utilizadas juntas, em um arremedo de frase.

    As frases não demoram a surgir e sem que percebamos quando isto ocorreu, uma criança que dizia "Dá nenê" em outro momento já fala "Por favor, me passa o arroz".


CARACTERÍSTICAS DA COMUNICAÇÃO INFANTIL

    Temos algumas outras peculiaridades na comunicação infantil. Como todo processo de aquisição, a fala iniciante também apresenta características específicas, passageiras, enquanto segue em direção ao modelo adulto.

    Observamos que os fonemas (os sons da fala ou as letras, como dizem popularmente) vão se adequando aos poucos ao modelo padrão. É natural nesse início, uma fala onde os fonemas são substituídos por outros mais simples. O adulto que ouve a criança dizer "O talu tá na dalazi", por conviver com ela e por captar outros dados da situação, traduz automaticamente por "O carro está na garagem". Claro que algumas crianças parecem nem passar por essa fase e os pais comentam que ela sempre falou perfeitamente desde pequena. Mas, até determinada idade isso é aceito, não constituindo um distúrbio.

    Outro fator que vai se modificando imperceptivelmente é a voz. Tanto que conseguimos distinguir a voz de uma criança bem pequena, daquela que é um pouco maior, a de um adolescente e do adulto. Além da voz, os termos utilizados, o vocabulário, a construção das frases, nos fornecem informações a respeito da faixa etária do falante.


A FLUÊNCIA INFANTIL

    A questão da fluência é também uma das peculiaridades da fala infantil. Seu curtíssimo tempo de contato com a linguagem não permite que ela tenha total desenvoltura com a mesma. Enfim, ela é aprendiz e tem dificuldades semelhantes, talvez maiores, do que a que tem um adulto que inicie o aprendizado de uma segunda língua.

    Ela está lidando com vocábulos novos que são colocados em frases e cada vez mais vai demonstrando que captou a noção de plural, de passado, de futuro, de sujeito que realiza determinada ação... e que está tentando utilizar tudo isso enquanto se expressa, dentro de um mundo do qual ela ainda conhece tão pouco.

    Hesitações na comunicação são naturais e esperadas e surgem inclusive na fala dos adultos considerados fluentes. Algumas crianças apresentarão hesitações muito frequentes e marcadas e, talvez também, repetições de sílabas ou de palavras.  Outras terão momentos nos quais não conseguem falar nada, apesar de tentarem. Podemos pensar em um mundo de informações em conflito dentro de uma mente ainda tão pouco habilitada para tarefa tão complexa.


ALTERAÇÕES NA FLUÊNCIA INFANTIL
   

    A preocupação surge quando qualquer desses processos naturais à fase de aquisição não é passageiro, não desaparece com o desenvolvimento infantil. Ou então se ele é tão intenso que perturba a possibilidade de comunicação desta criança.

    Entre eles, a fluência, nosso tópico de interesse, pode não evoluir dentro do esperado.

    Caso a criança apresente em algum momento rupturas marcantes, podemos ter três possibilidades de evolução no decorrer do tempo (a) as rupturas de fala duram um período curto e não surgem mais, (b) as rupturas surgem e desaparecem em ciclos que se repetem, (c) as rupturas surgem e se mantém constantes.

    No primeiro caso, não há muito porque se preocupar, especialmente se o tempo de permanência da gagueira for efetivamente curto (alguns momentos delimitados no tempo) e a disfluência moderada, pois provavelmente se trata apenas de um desequilíbrio passageiro. Quando isso acontece, em geral é possível circunscrever o que deflagrou o ocorrido: cansaço, estresse, demanda de fala excessiva, situações assustadoras, inesperadas ou extremamente excitantes.

    No segundo caso, já temos que ficar mais atentos e a intervenção do fonoaudiólogo especializado em fluência é importante, para auxiliar no diagnóstico. Os pais podem tentar observar se existe algum fator externo que provoque os desequilíbrios de fala e levar suas hipóteses para discuti-las com o profissional. Este fará uma orientação específica para aquela criança e, juntos, observarão sua resposta às eventuais modificações ambientais propostas. Quanto mais próximas forem entre si as ocorrências destes ciclos de rupturas ou quanto mais intensas forem estas, maior será a necessidade de aprofundar a investigação, verificando a situação geral da vida da criança e fazendo uma avaliação específica da fala. Como temos tentado difundir sempre: a intervenção precoce propicia maiores possibilidades de remissão.

    Quando as rupturas se mantêm constantes é essencial a intervenção do fonoaudiólogo especializado em fluência. Esta se faz necessária, tanto orientando os pais sobre procedimentos que auxiliem a fluência como interferindo diretamente na aquisição de linguagem e/ou na aprendizagem de mecanismos que propiciem uma comunicação mais fluida. A dosagem dessas intervenções dependerá da severidade de cada caso.

    Fatores como hereditariedade (familiares que apresentam gagueira), criança do sexo masculino e a presença de outros distúrbios da área da fala e da linguagem favorecem o surgimento de quadros de gagueira. Isso não significa que quem não se enquadre nessa listagem esteja isento e nem que quem tem essas características fatalmente vá apresentar gagueira. Na realidade, para o surgimento de um quadro de gagueira vários fatores se associam de modo complexo e dinâmico.


ATITUDES QUE FAVORECEM A FLUÊNCIA INFANTIL

    Temos ciência de uma série de comportamentos que favorecem o surgimento e a manutenção da fluência da criança. Devemos lembrar que a maioria dessas atitudes favorece a fluência em qualquer faixa etária e, inclusive, são normas básicas em comunicação.

1.    Ouça com atenção o que é dito. Se possível, pare o que está fazendo, mantenha-se na altura da criança e olhe para ela, de modo natural, enquanto vocês conversam. Se a conversa se alongar, descontraia-se cada vez mais e tire prazer desses momentos de interação.

2.    Considere as rupturas ou erros que surgirem na fala da criança como mais um dado da comunicação que ela produz. Assim, se a fala está acelerada, levante a hipótese de que talvez ela esteja se sentindo pressionada a falar rápido. Se ela quebra muito sua fala, pense que talvez ela esteja relatando algo que a perturbou ou que a mobiliza de modo especial.

3.    Dê modelos de fala ao invés de conselhos. Se você tiver ensejo de dizer à criança para que fale com mais calma, não o diga: mostre na sua fala como é falar calmo. Ela vai absorver isso de um modo muito mais eficaz.

4.    Acostume-se a falar com a criança em frases curtas. Emita essas frases de modo lento e natural, em tom de voz tranquilo e bem articulado. Fale corretamente, mas evite vocabulário rebuscado e uma quantidade excessiva de fala.

5.    Se a criança tem ciclos de fala fluente que se alternam com períodos de fala disfluente, utilize esse dado de modo vantajoso. Estimule conversação nos períodos fluentes e busque atividades mais silenciosas nos demais dias. Ficar em silêncio também pode ser muito gratificante tanto para você como para a criança.

6.    Dê o tempo que ela necessitar para falar. Espere que ela termine sua fala antes de iniciar a sua e ainda insira alguns segundos de silêncio antes de efetivamente falar. Oriente-a para que ela também aguarde você terminar sua fala.

7.    Respeite a criança como um pequeno falante. Releve seus erros, valorize suas percepções, leve-a a sério, considere o que ela lhe diz, mantenha esse canal de diálogo sempre aberto.

8.    Tenha tempo para que uma conversação tranquila possa acontecer. Separe ao menos quinze minutos do seu dia só para conversar com sua criança.

9.    Uma conversação não é um interrogatório. Algumas perguntas até podem ser estimulantes. O excesso delas bloqueia o ritmo natural do pensamento infantil. Experimente fazer pequenos comentários seguidos de sllêncio: em geral, isso possibilita que a criança se sinta mais estimulada a conversar e o faça de modo mais descontraído.

10.    Forneça experiências novas para a criança, mas evite o excesso de estimulações quando perceber que extrapolam seu interesse imediato. Ela geralmente busca o novo e lhe dará muitas pistas do que seria mais gratificante em cada momento.

11.     Respeite os horários básicos de alimentação e sono. Não estamos falando de rigidez, mas de rotina saudável. Uma criança cansada ou mal alimentada não tem as condições naturais para se sentir tranquila. Estimule uma alimentação saudável.

12.     Fique atenta às suas normas de disciplina. Excessos em qualquer sentido fazem mal. Uma criança muito reprimida ou totalmente sem limites é uma criança que dificilmente se sentirá bem.

13.     Avalie a que sua criança responde. Geralmente falas sérias, curtas, lentas e em voz baixa têm repercussão muito maior do que gritos e castigos.

14.     Um estudioso de gagueira, Starkweather [1], nos fala de demandas e capacidades. Avalie se suas demandas (solicitações, exigências, cobranças) estão dentro das capacidades desta criança em questão, seja no que se refere à fala ou aos comportamentos de modo geral. Caso necessário, reveja seus conceitos.


LIVRETOS SOBRE GAGUEIRA DIRECIONADOS ÁS CRIANÇAS

Em português:
- Para as crianças que gaguejam - Eliana Maria Nigro Rocha. Ilustrações: Carolina
Dutra Sarti. Acesse aqui.

Em inglês:
- Stuttering Stan Takes a Stand  - Artie Knapp. Ilustração: Barbara Leonard Gibson. Acesse aqui.





[1] Starkweather, C.W. Therapy for younger children.pg 257-279 in Curlee, RF & Siegel, GM. Nature and treatment of stuttering. New Directions. 1997. Boston. Allyn and Bacon






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