Monografia de conclusão do curso de especialização em
Sócio-Psicomotricidade Ramain-Thiers - Eliana Maria Nigro Rocha - São Paulo - 1998
INTRODUÇÃO
Este trabalho tem o intuito de acompanhar as transformações que
foram ocorrendo no campo da Psicomotricidade: procura esboçar sua
origem e as diversas etapas pelas quais passou.
O que me impulsionou a este estudo foi uma necessidade pessoal de
organização dos inúmeros dados que fui obtendo durante minha
formação como psicomotricista e o desejo de poder me posicionar
frente às várias vertentes da Psicomotricidade.
Minha formação de base é a Fonoaudiologia e meu primeiro contacto
com a Psicomotricidade se deu através do método Ramain entre 1980 e
1983. Ramain é um método psicomotor criado na França por Simonne
Ramain, e na época, era aplicado em nosso país por Solange Thiers,
coordenadora Ramain do Brasil.
Cabe aqui citar Marina, terapeuta ocupacional, colega de estudo no
Método Ramain. Logo após o início de nossa formação ela relatou que
havia buscado Ramain como um trabalho em Motricidade e que depois
constatou que era Psicomotricidade e que só naquele momento entendia
que era PSICOmotricidade. Recentemente encontrei em Le Camus (1984,
p. 63) uma idéia semelhante ao se referir à evolução da
Psicomotricidade, mas como a colocação de Marina é do início de
nossa formação, ou seja, 1980, mantenho a referência a ela como
autora da frase, que sintetiza adequadamente a vivência efetuada
naquele momento.
Encerrada a formação Ramain continuei a atuar como fonoaudióloga,
introduzindo em minhas terapias a "filosofia" que havia assimilado:
mantinha minha atenção voltada ao processo de emergência de uma
habilidade e não mais à aquisição mecânica da mesma, valorizava mais
os aspectos corporais, percebendo sua interferência na possibilidade
de atenção e evolução do paciente e tinha consciência da necessidade
de considerar o emocional que sempre estava presente. Com alguns
pacientes tive a possibilidade de atuar como psicomotricista,
utilizando não apenas o que denominei "filosofia" do Ramain, mas
também seu método psicomotor.
Muitas leituras, desencontradas, foram sendo feitas neste período:
Le Boulch, Pierre Vayer, Boucher, Pick, Costallat, Coste, Lapierre,
Alexander, Feldenkrais e outros. Eu não percebia como articular suas
diferentes posturas, suas propostas diversificadas.
Em agosto de 1996 iniciei minha formação em Sócio-Psicomotricidade
Ramain-Thiers, que considero como uma reconstrução do método Ramain,
efetuada por Solange Thiers. Vejo esta reconstrução como se uma
antiga mansão fosse demolida e em seu lugar fosse erigido novo
edifício, que aproveita algumas das fundações anteriores, mas
fortalece-as com o embasamento teórico da Psicanálise e recria as
divisões ambientais internas, tornando o local mais amplo, mais
claro e mais funcional; introduz a preocupação com o aspecto social,
com a integração do indivíduo à sociedade a qual pertence.
Em meio à toda aquisição e enriquecimento pessoal obtido nesta nova
formação, ficou difícil decidir o que fazer com meus conhecimentos e
atuações anteriores. Jogá-los fora como sapatos rotos, que haviam me
permitido longas excursões, mas que haviam se tornado inúteis?
Considerá-los meios válidos só para determinados pacientes que
necessitassem de minha atuação mais enfocada para aspectos
específicos de suas dificuldades? Ou então fazer uso deles em meu
trabalho em instituição pública, onde os recursos e o tempo são
escassos frente ao número sempre crescente de pacientes e reservar
Ramain-Thiers para a terapia privilegiada do consultório particular?
Decidi-me pela integração.
Este trabalho tem como objetivo percorrer o trajeto efetuado pela
Psicomotricidade em sua transformação até chegar a uma abordagem
como a Sócio-Psicomotricidade Ramain-Thiers. Refazendo este caminho,
refiz meu caminho pessoal neste estudo e pude fortalecer a síntese
que norteia minha atuação atual como psicomotricista e mais
especificamente como terapeuta de indivíduos cuja queixa é gagueira.
É um trabalho modesto, composto de dados obtidos com apenas cinco
autores, nos quais busquei exclusivamente os tópicos que me
impulsionavam à esta pesquisa, sem almejar poder abarcá-los de modo
mais amplo. Mas é um trabalho que me satisfez muito, que me deu
grande prazer ao poder integrar conhecimentos que andavam tão
desarvorados, organizando-os e assimilando-os aos novos dados
obtidos neste estudo.
I - SURGIMENTO E TRANSFORMAÇÃO DA PSICOMOTRICIDADE
1. Enfoque "filosófico"
Na perspectiva de Levin (1991,p.21) podemos falar de uma
pré-história da Psicomotricidade, que se inicia a partir do momento
que o homem fala, porque então passa a poder falar de seu corpo. Com
a evolução do tempo, as concepções a respeito desse corpo vão se
modificando.
A questão corpo/alma já se encontra presente no próprio surgimento
de uma percepção que trouxe a necessidade de existência destes
vocábulos, e então temos "corpo" do latim "corpus" que é definido
como "a substância física, ou a estrutura de cada homem ou animal" e
"alma" do latim "anima" significando "essência imaterial do ser
humano, espírito". (Cunha, 1982)
As relações entre corpo e alma foram vistas de modos diferentes. Nos
espetáculos gregos teremos a vivência "de transformar o seu corpo em
órgão do espírito" e em Platão a visão do corpo como morada da "alma
imortal". (Levin, p. 22)
É no século XVII que esta dicotomia corpo/alma é acentuada - e não
criada, como costuma ser difundido - por René Descartes, que ao
mesmo tempo em que diferencia o corpo que não pensa, da alma
"pensante", também se refere à estreita e indissolúvel união
corpo/alma, que compõe um todo. É importante frisar que Descartes se
referia à alma, num sentido religioso, e não à mente.
2. Enfoque neurológico e psiquiátrico
Diferentemente da Filosofia, a Neurologia vai se dedicar à relação
corpo/cérebro, inicialmente correspondendo cada sintoma corporal a
uma lesão focal e depois - já no século XIX - constatando que as
disfunções corporais podem ocorrer na ausência de lesões cerebrais
claramente localizadas. É então (1870) que surge o termo
Psicomotricidade, pela necessidade da Neurologia de nomear
determinadas zonas do córtex cerebral que se situam "mais além das
regiões motoras'" (Levin, p.21) e que expliquem certos fenômenos
clínicos. Em 1900, Tissié passa a utilizar o qualificativo
"psicomotor" referindo-se às relações entre pensamento e movimento.
(Le Camus,1984, p.24)
Le Boulch (1981,p.20) cita a Psiquiatria como tendo um papel
importante no surgimento da Psicomotricidade ao evidenciar "que em
certos casos, o tratamento das enfermidades chamadas `mentais'
passava pela ação sobre o corpo e seus movimentos".
No século XX a Psicomotricidade se institui como prática
independente, separando-se gradativamente da Neuropsicopatologia do
movimento. Dupré, neurologista francês, tem destaque nesse evento,
ao definir em 1909, a síndrome da debilidade motora e ao romper com
a idéia de correspondência biunívoca entre localização neurológica e
perturbações motoras da criança.
É Dupré também quem vai abordar a questão cognição/ motricidade,
inicialmente associando debilidade motora e debilidade mental, mas
depois podendo desvinculá-las e estabelecer diferenças entre elas,
constatando que é possível ter dificuldades motoras sem ter
alterações intelectuais e vice-versa. Segundo Le Boulch (p.21) é
desta associação inicial entre as duas questões que surgiu o termo
"debilidade psicomotora" que substituiu o anterior "debilidade
motora".
3. Enfoque psicológico
O advento da Psicanálise não passou despercebido para a
Psicomotricidade. Freud, Klein, Winnicot, Schilder, Reich, Lacan,
Mannoni, Dolto, Samí Alí e outros são citados por Levin como
influenciando a prática psicomotora, levando a uma nova concepção do
corpo.
"O ego é antes de tudo um ego corporal" é afirmado por Freud em
1923.
Piaget também tem sua influência registrada em algumas abordagens
psicomotoras, e o mesmo se pode dizer de Skinner, cada um deles
trazendo contribuições diversas, de onde advêm novos modos de
intervir nesses distúrbios, como veremos mais adiante.
Os autores citados acima realizaram seus trabalhos em suas áreas de
atuação e foram assimilados por alguns estudiosos da
Psicomotricidade; no entanto outros se voltaram mais diretamente à
questão psicomotora.
Henry Wallon, em 1925, define o movimento como instrumento da
construção do psiquismo e associa-o ao afeto, à emoção e ao meio
ambiente.
Spitz e Winnicot (1978) enfatizam a importância do afeto na evolução
infantil.
Em 1977 Samí Alí produz o esboço de uma teoria psicanalítica da
Psicomotricidade.
Le Boulch (p.21) vê as crianças com distúrbios motores como
apresentando uma "situação afetiva particular", "uma imaturidade
afetiva que às vezes é a causa principal dos transtornos
instrumentais, sendo estes apenas sintomas."
Le Camus (p.63) refere-se ao "irresistível deslizamento do pólo
motor ao pólo psíquico" que ocorre dentro das abordagens
psicomotoras.
Thiers (1988, p.3) cita ter sido "acusada" de transformar o Ramain,
que chegou ao Brasil como método pedagógico, em um processo de
terapia de natureza emocional, mas acredita que esta já era a
prática de Simonne Ramain, criadora do método. No entanto, afirma
que a perspectiva emocional no Ramain é uma contribuição brasileira
(1988, p.11). Acredito que se trata de uma referência à prática de
Simonne Ramain em relação ao embasamento teórico que foi sendo
construído no Brasil, aliado a uma nova prática que foi criada.
Levin é, entre os autores por mim investigados, aquele que abraça
os conceitos psicanalíticos de modo mais exclusivo, buscando neles
um novo modo de atuação em face aos desvios psicomotores.
4. Enfoque social
Na sequência de sínteses que foram sendo feitas nas transformações
da Psicomotricidade, o corpo foi integrado à mente e ao psíquico.
Mas faltava ainda uma síntese que veio a ser feita por Thiers.
Thiers (1988) atribui a Simonne Ramain a prática terapêutica com
pessoas com problemas emocionais e sociais, mas tem ciência de que o
método Ramain teve seu embasamento teórico realizado no Brasil, após
o rompimento com a França, decorrente de desentendimentos surgidos
posteriormente ao falecimento de Simonne Ramain. A partir de então
foi se delineando de modo cada vez mais claro o que viria a ser a
Sócio-Psicomotricidade Ramain-Thiers. Assim, surge o que considero
uma nova transformação na Psicomotricidade, ou seja, a integração do
enfoque social aos enfoques anteriores.
II - ANTECEDENTES DA PSICOMOTRICIDADE
No final do século XIX e início do século XX o enfoque
empírico-positivista tinha o seu apogeu e a Neuropsiquiatria em sua
necessidade de promover a "cura" de distúrbios que desconhecia,
seccionou o indivíduo em suas dificuldades: motoras, de linguagem e
de aprendizagem, com suas terapias específicas: a Fisioterapia, a
Ortofonia e Logopedia, e a Pedagogia Especial que futuramente dariam
origem à Psicomotricidade, à Fonoaudiologia e à Psicopedagogia.
(Conf. Levin, p.22-24)
Enfocando mais diretamente as modificações ocorridas no campo
psicomotor, Levin (p.34) coloca como seu primeiro antecessor a
Ginástica Terapêutica. Esta objetivava uma postura correta, a
harmonia corpo-alma e para tal propõe exercícios, aparelhos e
castigos corporais para favorecer um bom posicionamento, que era
associado à retidão moral. Cita como exemplo, Shreber por volta de
1850 e 1860. O segundo antecessor seria a Psicodinâmica de Philippe
Tissié, no início do século XX, que propõe a educação pelo
movimento, que foi posteriormente retomada por Le Boulch.
Le Camus (p.24 e 25) considera Tissié o precursor dos
psicomotricistas atuais por ter-se oposto, na França, à ginástica,
propondo que fossem consideradas as relações entre pensamento e
movimento, quando então surge a disciplina que será denominada
Educação Física.
III - HISTÓRICO DA PSICOMOTRICIDADE
Le Boulch, Le Camus, Levin e Thiers consideram as transformações
ocorridas na Psicomotricidade, desde sua origem até a atualidade.
Cada um deles as vê de modo particular, mas parece-me possível
traçar um paralelo entre as diversas colocações, o que será feito
mais adiante. Inicialmente gostaria de sintetizar de modo rápido a
visão de cada um deles.
Le Boulch analisa o caminho percorrido em direção à Educação
Psicomotora, sua área principal de estudo, mas não deixa de se
colocar a respeito das demais abordagens existentes.
Le Camus (p.11) propõe-se enfocar o quadro evolutivo "além da
aprovação (às vezes ingênua) dos partidários e da recusa (às vezes
sectária) dos adversários." Sua explanação me parece de fato a mais
ampla e imparcial, destacando inclusive a existência de
"contra-ofensiva" relacionada às mudanças ocorridas e criticando de
modo objetivo e prático algumas abordagens. Assim, é dele (e de
Thiers, 1988) que surge claramente a idéia de que as transformações
dentro da Psicomotricidade não se fizeram de modo simples e
harmônico, mas que sérias resistências ocorreram e continuam
ocorrendo. É importante destacar sua visão sobre a "bipolarização
teoria-prática" e "bipartição de tarefas", ou seja, a existência de
uma teoria psicomotora efetuada por filósofos, psicólogos,
neurologistas, psiquiatras e uma prática psicomotora criada por
educadores e terapeutas. A partir desta constatação cita as várias
duplas funcionais que se formaram na história da Psicomotricidade,
unindo teóricos e práticos, como por exemplo, Wallon e Guilmain nos
anos 30. (Conf. Le Camus, p.10 e 14).
Dentre os autores consultados por mim, Le Camus é o único cujo
objetivo primordial é de rever as transformações pelas quais a
Psicomotricidade passou, os demais autores tem como meta principal
explanar suas posições terapêuticas.
Levin define três cortes epistemológicos na evolução da
Psicomotricidade, que são vistos por ele como "passagens lógicas e
não cronológicas" (p.32), alertando que é em dependência da
concepção que se possui sobre o sujeito que se dará a prática
clínica. Assim, esclarece-se a coexistência das diferentes
abordagens psicomotoras, ou seja, constata-se que as datas a que me
referirei a seguir importam em novas visões que surgem, não
significando uma nova era para todos os estudiosos e práticos da
área e nem mesmo uma sincronia de pensamento entre os
psicomotricistas atuais.
Thiers não se propõe a fazer uma revisão histórica da
Psicomotricidade como um todo. Sua colocação se refere mais
diretamente à transformação ocorrida desde a abordagem Ramain até a
Sócio-Psicomotricidade Ramain-Thiers. Destaca-se nas suas colocações
sua valorização de todos os envolvidos na construção desta nova
maneira de enfocar o indivíduo, o que não consegue ocultar o
bem-sucedido esforço realizado por ela para levar em frente suas
convicções. Suas referências constantes à Simonne Ramain fazem
lembrar as "duplas funcionais" denominadas por Le Camus; no entanto
Thiers não tem apenas o papel referente aos aspectos teóricos desta
abordagem, tendo criado também uma nova prática a partir do método
anterior.
Podemos agrupar as transformações ocorridas na Psicomotricidade em
quatro momentos.
1. Primeiro Momento
Após Dupré ter definido a debilidade psicomotora, temos o teste de
Ozeretsky em 1921 (conf. Levin, p. 37), e Gourevitch e Ozeretsky em
1930, que baseando-se nos trabalhos de Kretschemer, estudam as
constituições psicomotoras (conf. Le Boulch, p.20).
Muitos estudos foram realizados para a detecção e análise dos
déficits psicomotores. Le Boulch ( p.21) cita:
- testes de performance: bateria de Walter, testes de Heuyer-Bailler,
etc
- testes visando determinar uma idade motora, como o teste de
Ozeretski, retomado por Guilmain e mais recentemente por Vayer.
- testes destinados a seguir a evolução do esquema corporal, como o
teste de imitação de gestos de Bergés e Irène Lézine.
Le Boulch ainda se refere aos testes que já não buscam analisar
dificuldades específicas, mas sim o conjunto de transtornos, visando
definir o perfil psicomotor e destaca, por sua praticidade, o teste
de Pick e Vayer. A idéia subjacente é de que, utilizando técnicas
direcionadas, a reeducação psicomotora permite corrigir os
distúrbios detectados pelos testes.
A prática psicomotora se inicia com Edouard Guilmain em 1935 que
idealiza um exame psicomotor, a partir de revisões dos testes de
Ozeretsky e cria técnicas de reeducação psicomotora, constituída por
exercícios que levam em consideração o caráter da criança. Huguette
Bucher também cria seu método de reeducação visando desenvolver as
diferentes posições e deslocamentos do corpo. Na Argentina, D.M.
Costallat coloca planos específicos de reeducação de acordo com a
idade motora e o aspecto deficitário; inclui em sua abordagem a
necessidade da demanda de "um esforço de atenção que ponha o
psiquismo em jogo, constituindo assim, um verdadeiro método de
ortopedia mental". (Conf. Levin, p 26, 38 e 39.)
Para Le Camus (p.64) os seguidores de Guilmain ainda se assemelhavam
muito aos professores de Educação Física, apenas dando um destaque
maior à ginástica de formação sobre a ginástica de aplicação.
Le Camus (p.29 e 67) considera este primeiro momento da
Psicomotricidade como o paralelismo científico que surge como uma
reação de defesa ao dualismo platônico, augustiniano e cartesiano. O
corpo é colocado ao lado da mente, embora não sejam vistos de modo
integrado, pois como paralelas, seguem lado a lado, mas não se
encontram. É "o corpo hábil" ou corpus habilis que se diferencia da
visão anterior de corpo máquina ou corpo instrumento. Neste período
Le Camus situa T. Ribot, P. Janet e P. Tissié, H. Wallon e E.
Guilmain (segundo sua visão de duplas funcionais).
Levin (p.30) reconhece este período como o primeiro corte
epistemológico da Psicomotricidade e, como Le Boulch, denomina-o
"reeducação psicomotora" que se baseia no paralelismo mental-motor,
ou seja, que procura superar o dualismo corpo/mente, embora aborde
apenas o aspecto motor. Frisa que a Neuropsiquiatria tem um peso
muito grande nesta visão do corpo como um instrumento a ser
consertado, (...) e à medida que isto é feito, melhoram
'paralelamente' (doutrina do paralelismo mental-motor) a
inteligência e o caráter..." (Levin, 1991, p. 41)
Ramain talvez não devesse ser citada neste momento, uma vez que seu
método foi inicialmente definido como método pedagógico e segundo
Thiers (1988, p.7) foi só em 1973 que o Grupo A do Rio de Janeiro
mostrou a Simonne Ramain que seu método era Psicomotricidade. Mas a
autocrítica que Ramain realiza em 1964 em seu artigo, demonstra que
neste momento sua visão terapêutica estava de acordo com a época.
Assim, ela utilizava técnicas que propunham exercícios com
resultados a serem atingidos, realizando uma espécie de treinamento,
não deixando espaço para a experiência pessoal. (p.2)
Resumindo, temos então neste primeiro momento uma influência médica
muito forte na Psicomotricidade, que busca resolver dificuldades
motoras, ciente da interferência do aspecto "mental" nestas, mas que
em suas avaliações e reeducações aborda apenas o corpo. Encontramos
dentro deste período um refinamento gradativo, um conhecimento cada
vez maior do que eram afinal estes distúrbios psicomotores e até um
esboço de abordagem mais direcionada à dificuldade do indivíduo e à
sua idade cronológica. Quanto aos autores pesquisados por mim,
encontro uma grande semelhança de enfoque, com colocações que se
completam e se reafirmam mutuamente.
2. Segundo Momento
Ajuriaguerra coloca que os transtornos psicomotores oscilam entre o
neurológico e o psiquiátrico: é uma nova visão, a da interferência
do aspecto emocional. Junto com Diatkine, Ajuriaguerra dá uma nova
definição à debilidade motora, considerando-a educável e
não-orgânica.
Le Camus (p.64) localiza a primeira modificação no enfoque
psicomotor entre 1947 e 1960, que ele denomina "primeiro
deslizamento" do aspecto motor ao aspecto psíquico,
... quando G. Soubiran, em consonância com S. Ramain, P. Mazo, M.
Vyl, etc. concebeu, além do 'exame tipo' e da 'sessão tipo',
programas diferenciados em função das categorias de distúrbios e
acentuou mais o trabalho do aspecto qualitativo da motricidade (...)
o que se quer melhorar é a inteligência do movimento...
É esta, segundo Le Camus, a reação de defesa contra os racionalistas
dos séculos XVIII e XIX, que é efetuada com a influência de M.
Merleau-Ponty, de J. Piaget, de S. Freud, de J. de Ajuriaguerra: é o
corpo consciente, o pensamento feito corpo" (Le Camus, p.67) . É o
corpus sapiens.
Le Camus (p.31- 33) refere-se ainda à influência da Gestalt e do
conceito de esquema postural de Head, retomado por Schilder que
realiza uma síntese entre a visão neurológica de Head e a visão
psicanalítica de Freud, integrando aspectos motores, perceptivos,
sexuais e afetivos no que denominou "imagem do corpo" ou "esquema
corporal". Destaca Merleau-Ponty e sua obra "Fenomenologia da
Percepção" considerando-a "o último ato de condenação do dualismo" e
citando um trecho que resume esta idéia "Eu não estou diante de meu
corpo, estou em meu corpo, ou melhor, eu sou meu corpo."
Le Camus (p.34 e 37) coloca também neste segundo momento, Buytendjik
(que "não estuda movimentos e sim homens que se movem" e que afirma
que "o movimento pertence à unidade psicofísica humana"), e Wallon,
para quem o esquema corporal é uma construção, resultado das
relações do indivíduo e seu meio. Mas é Ajuriaguerra quem Le Camus
considera o mais influente junto aos psicomotricistas (p.38 - 39)
com suas colocações de que "o estado tônico é um modo de relação" e
de que "a função postural está essencialmente vinculada à emoção,
isto é, à exteriorização da afetividade." Piaget também merece
destaque (p.40) com sua visão de que o movimento é a manifestação do
psiquismo, e, portanto, da inteligência.
Para Le Boulch este período é denominado terapia psicomotora, e
constitui a modificação da abordagem técnica ou reeducação
psicomotora sob a influência da Psicanálise. Cita como seus
representantes na França: Mazzo, Degh e Diamant.
Le Boulch coloca que uma abordagem técnica que não valorize o
aspecto emocional pode dar resultados satisfatórios caso a
perturbação emocional não seja muito profunda, mas que o mais
frequente é que o paciente apresente uma séria perturbação emocional
e que a abordagem técnica faça - segundo estudo de Arlette Bourcier
- com que o sintoma desapareça para ser substituído por outro, ou
que o sintoma seja reforçado ou mesmo se cronifique.(Conf. Le Boulch,
p 21)
Embora ciente da importância dos problemas afetivos na abordagem
psicomotora, Le Boulch (p.22) não aceita a visão da Psicanálise de
que, resolvendo as dificuldades emocionais, os problemas funcionais
desapareçam, pois mesmo que o ponto de partida de uma dificuldade
psicomotora seja essencialmente afetivo, os transtornos funcionais
decorrentes originam "tal interação entre o afetivo e o funcional
que só uma concepção mista terá chances de sucesso".
Le Boulch cita as terapias comportamentais que surgiram para
responder ao fracasso das terapias psicodinâmicas de orientação
psicanalítica. Refere-se à visão de Skinner de que é mais importante
saber o que mantém um comportamento na atualidade, que saber como
este comportamento foi adquirido no passado. Assim, para Skinner, a
tarefa do terapeuta consiste em identificar fatores que mantém um
comportamento inadaptado, para modificar o meio e produzir uma
modificação do comportamento. O terapeuta não busca o retorno a uma
situação afetiva do tipo dual (transferência), mas dirige-se a
outros aspectos importantes do meio. Vejo esta proposta skineriana
como uma volta ao enfoque que denominei primeiro momento.
Frente a estas duas concepções tão diversas entre si, Le Boulch (
p.23 e 24) defende que a Psicomotricidade deve ter sua própria
identidade e não relacionar necessariamente sua metodologia a uma ou
outra corrente.
Para Levin (p.31) este é o segundo corte epistemológico e utiliza a
mesma denominação de Le Boulch: "terapia psicomotora", especificando
que aqui já não se aborda apenas o aspecto motor, mas o corpo em
movimento, ciente da importância deste na construção da realidade e
no seu relacionamento com as emoções. A influência dominante é da
Psicologia - principalmente a Psicologia Genética - e o corpo é
então visto em três dimensões: instrumental, cognitiva e
tônico-emocional
Levin (p.27 e 28) situa este momento na década de 70, quando a
Psicomotricidade passa a ser definida como uma "motricidade em
relação" e cita como pertencendo a este período J. Bergès, Diatkine,
Jolivet, Launay e Lebovici. Cita ainda Lapierre e Aucouturier.
Refere uma despreocupação com a técnica e a busca de uma visão do
corpo em sua globalidade, quando é dada maior importância à
afetividade e ao emocional, com embasamento - embora de modo
fragmentado - na Psicanálise em autores como Freud, Klein, Winnicot,
Schilder, Reich, Lacan, Mannoni, Dolto, Samí Alí e outros.
Conforme citado anteriormente, Le Camus coloca Ramain como um
programa diferenciado que acentua o aspecto qualitativo da
motricidade.
É exatamente o que se deduz das colocações realizadas por Simonne
Ramain em artigo de 1964. Ela define, então, sua nova abordagem, na
qual busca "descobrir a elasticidade da personalidade profunda" (p.
3) através de exercícios que não se repetem, que não são refeitos e
que propõem sempre uma situação nova que o indivíduo deve enfrentar
sozinho. Estes exercícios incluem a educação dos gestos e das
atitudes físicas que "criam a disponibilidade e facilitam o controle
e o domínio de si." (p. 9)
O papel do educador não é o de dar a resposta, mesmo porque o
resultado correto não é o mais importante, o que importa é a maneira
de agir, a auto-observação e o autodomínio durante a execução dos
exercícios. O educador "deve permitir que cada um se veja e se
aceite tal como é." (p. 4)
Ramain refere-se ainda aos "conselhos dados por ocasião das
conclusões" (p.11), que demonstra a preocupação em realizar um
trabalho global, conforme define Thiers:
Inicialmente, o Ramain propunha um trabalho global do indivíduo.
Era, porém uma terapia pré-verbal: as pessoas vivenciavam a técnica,
exprimiam suas vivências, só que as devolutivas não tinham a
preocupação de integrar os conteúdos inconscientes que emergiam da
proposta. Acreditava-se que o Ramain, por si só, fizesse a terapia
...(Thiers, 1994, p.XVII)
Assim, constatamos a entrada do emocional neste segundo momento,
denominado terapia psicomotora por Levin e Le Boulch. Se
anteriormente havia um "paralelismo" entre corpo e mente, agora
começa a surgir uma síntese que considera a interferência das
emoções, revendo o conceito de distúrbio psicomotor e denominando-o
"sintoma". Muito mais do que no primeiro momento, o indivíduo é
levado em consideração e o objetivo é que ele possa viver sua
individualidade.
3. Terceiro Momento
É de modo nostálgico que Le Boulch se refere a este novo estágio da
Psicomotricidade:
A corrente de educação psicomotora pouco a pouco tem se diluído,
quase desaparecendo. Dois de seus principais representantes,
Lapierre e Aucouturier (...) tem optado pela ação terapêutica.
Pierre Vayer (...) parece estar também desinteressado pela educação
psicomotora para continuar sua pesquisa no sentido de uma concepção
psicoeducativa mais geral. (Le Boulch, p. 26)
Entende-se a nostalgia de Le Boulch. Ele manteve uma postura de
defesa ao que denomina "educação psicomotora", enquanto os
estudiosos que compartilhavam suas idéias partiram em direção a
outros rumos.
A corrente educativa em Psicomotricidade, surgiu de transformações a
partir da Educação Física quando esta passou a ser vista como uma
abordagem que colocava a atividade corporal em paralelo à mental,
sem permitir uma unidade, como já citado anteriormente. Sua prática
foi criada por professores de Educação Física e tem como
destinatário indivíduos de todos os tipos, tendo sua aplicação
acentuada na pré-escola e escola elementar.
Le Camus (p.48 e 49) considera este momento a terceira fase da
evolução da Psicomotricidade, quando o corpo deixa de ser visto como
mudo e passa a ser percebido como um corpo que fala "através dos
sintomas que testemunham sua inserção numa história singular". É o
que ele define como "semio-motricidade, a motricidade emissora de
informação." (p.58) É também o corpo consciente, corpus loquens, o
corpo que fala.( p. 67)
Ocorre uma busca de fortalecimento das bases teóricas, que já não se
centrará exclusivamente na Neurofisiologia e nos psicólogos do
desenvolvimento, mas cada vez mais incluirá a Psicanálise (freudiana
ou reichiana), a Psicologia das Comunicações Não Verbais e a
Etologia. Dentro da influência da Psicanálise Freudiana, Le Camus
coloca uma citação de Sami-Ali que define bem este novo enfoque:
"Damo-nos conta de que, paradoxalmente, o que ocorre no corpo
(sintoma neurótico ou atual) não ocorre no corpo, mas numa relação
implícita com o outro." (p.52). Já a Psicanálise Reichiana teria
deixado como legado à Psicomotricidade a consciência da importância
do aqui-agora e de ouvir o corpo.
Desta influência psicanalítica tem-se como consequência uma nova
abordagem psicomotora, na qual o terapeuta se dispõe a ouvir,
compreender e auxiliar seu paciente e não mais a testá-lo e
reeducá-lo.
Para Levin (p. 31) este é o terceiro corte epistemológico no qual se
encontra a "clínica psicomotora (...) "que já não centra o seu
olhar num corpo em movimento, mas num sujeito com seu corpo em
movimento", sujeito que é constituído por um corpo real, um corpo
imaginário e um corpo simbólico. Assim, a terapia já não é composta
por objetivos e técnicas, mas é "centrada no corpo de um sujeito
desejante". A teoria psicanalítica, numa leitura lacaniana, dá
embasamento a esta visão, com a inclusão do inconsciente e da
transferência na relação terapêutica.
Thiers em sua monografia de abril de 1983 faz colocações sobre o
método Ramain que, em meu entender, o definem como pertencendo a
este terceiro momento de evolução da Psicomotricidade. É o método
Ramain já em suas transformações iniciais em direção à
Sócio-Psicomotricidade Ramain-Thiers:
Trabalhamos o corpo que é a base de nosso processo e, em analogia, a
corporalidade é trabalhada através do papel quadriculado que
simboliza as pulsões de vida e morte, na dinâmica de cortes em
planos longitudinais e transversais, que nos trazem no ponto, o
equilíbrio entre corpo-mente-psiquê... (Thiers, 1995, p. 58)
No terceiro momento o enfoque psicológico, que já se encontrava
presente no momento anterior, direciona-se principalmente para a
Psicanálise. O corpo passa a ter um novo status: de comunicação do
interno do indivíduo com o externo que o circunda, e esse interno se
refere às pulsões, aos desejos, ao inconsciente.
4. Quarto Momento
Le Boulch e Levin encerram seu relato sobre a evolução da
Psicomotricidade no terceiro momento. No entanto, achei necessário
colocar um novo momento que encampasse o aspecto social que a Sócio-Psicomotricidade Ramain-Thiers possui, e que explana em
diversos trechos:
(...) porque o mais importante é o despertar do viver coletivamente,
do ser responsável por sua própria ação, do despertar de sua
consciência social pela possibilidade da integração
corpo-mente-sociedade. (1994, p. 27)
Foi a compreensão de um sujeito uno: corpo, mente, ação e sociedade,
o que nos permitiu a abrangência de um trabalho mais global. (1994,
p. XVIII)
Ramain-Thiers visa à compreensão do sujeito psíquico, que engloba o
sujeito social, seu aprendizado de vida em coletividade, o respeito
a si próprio, ao outro. Para Ramain-Thiers é impossível conceber o
sujeito fora de sua sociedade... (1994, p. XIX)
A concepção sócio-psicanalítica do RAMAIN-THIERS é que a Psicomotricidade vivida no contexto sócio-grupal deve ser
compreendida não só pelas intersecções cognitivas, emocionais ou
psicomotoras, mas também pela integração destas com o social, para
que o sujeito se insira melhor na cultura. (1994, p. XIX)
Le Camus (p.53) cita entre as influências da Psicologia das
Comunicações Não Verbais na Psicomotricidade, a de Parlebas, que
efetuou publicações e conferências sobre a sociomotricidade, baseado
em estudos da Psicologia Social. Mas a repercussão de suas
colocações se deu principalmente entre professores de Educação
Física, pouco afetando a Psicomotricidade. Assim, entendo que o
aspecto social efetivamente fica circunscrito à
Sócio-Psicomotricidade Ramain-Thiers, e que vem completar a visão
que se pode ter do indivíduo, tornando-a total.
Considero essencial citar como característica que incluo neste
quarto momento, o "fazer" que advém do método Ramain e dos
denominados "métodos ativos", e permanece na Sócio-Psicomotricidade
Ramain-Thiers, ressaltadas suas propostas originais e sua leitura
psicanalítica, seu trabalho efetivado na transferência vertical (com
o terapeuta), horizontal (com o grupo de terapia) e transversal
(aspectos sociais):
O indivíduo sente-se produtivo porque passa pelo "fazer", pela
expressão motora, que é a ação, onde tem a oportunidade de reparar
as questões danificadas, não só no seu trabalho prático, mas também
na sua vida pessoal, tendo seu próprio corpo como referência de
vida, um corpo que sentindo e vivendo descobre formas alternativas
de crescer, amadurecer, ser adulto, ser produtivo, ser social!
(Thiers, 1994, p. XIX)
Temos então neste quarto momento, da junção dos enfoques citados
anteriormente, com os agora descritos, como enfoque social e como
enfoque de atuação, a visão de um corpo que não é trabalhado
exclusivamente para o bem-estar do indivíduo, mas para que esteja
existindo na sociedade na qual se insere, de modo a transformar o
bem-estar que poderia ser meramente narcísico na satisfação profunda
de "fazer parte de", de atuar, de intervir, de estar totalmente
presente.
CONCLUSÃO
A visão histórica das transformações da Psicomotricidade deixa claro
o curioso processo que ocorreu nesta área de estudo: conforme a
percepção dos estudiosos se aguça, múltiplas análises, cisões e
classificações foram sendo realizadas, posteriormente passaram a
ocorrer sínteses, integrações. Neste fascinante jogo de
análise-síntese foi se delineando o crescimento que se deu na visão
do sujeito em relação ao seu corpo. Corpo que já foi pura carne, que
encampou a mente, associou o psiquismo e se projetou na sociedade,
com inteireza total.
A sensação durante a realização desta monografia foi a de estar
armando um quebra-cabeça de inúmeras peças. Algumas eu já possuía há
muito, mas não sabia a que espaço elas pertenciam. Outras peças
foram sendo encontradas nas leituras efetuadas para esta tarefa. Foi
extremamente prazeroso vivenciar o "quebra-cabeça" tomando forma,
encaixar idéias e autores, sentindo que uma nova visão surgia para
mim, seja a respeito das antigas abordagens e da contribuição que
elas trouxeram para a minha atual percepção, seja da
Sócio-Psicomotricidade Ramain-Thiers que se reafirmou como a
abordagem escolhida por mim.
A formação e vivência pessoal na Sócio-Psicomotricidade
Ramain-Thiers veio transformar em possibilidade um antigo sonho meu
- que cheguei a considerar busca de onipotência - de integrar numa
só atuação todas as abordagens terapêuticas de que um indivíduo
necessita, sem precisar facetá-lo como fazem as ciências quando se
propõem a estudar uma matéria.
Há muito venho atuando de modo mais específico com indivíduos cuja
queixa é gagueira: indivíduos que foram cindidos de todos os modos
possíveis. Cindidos antes mesmo de buscarem terapia, pois sua fala
já denuncia a cisão, a dificuldade de se manter inteiro, de
expressar suas percepções, suas idéias, sentimentos. Cindidos na
própria terapia - que embora afirme interagir com ele de modo global
- aborda sua tensão, sua articulação, seu modo de utilizar a fala em
diversas situações; ou então aborda seus conflitos internos e
externos, ouve e responde às suas angústias; ou mesmo, minimiza as
dificuldades presentes e as considera artefatos do meio social.
Há muito venho colocando aos colegas de estudo de gagueira que
necessitamos realizar a integração dos nossos pontos de vista. Em
1989 apresentei na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo,
como requisito à obtenção do título de mestre em Linguística
Aplicada, a monografia "As rupturas na fala da criança 'fluente' e
da criança 'disfluente'". Nesta monografia faço uma abordagem
Psicolinguística da disfluência, ou seja, observo a disfluência sob
um prisma específico, mas encerro meu trabalho referindo-me à
parábola dos "Seis cegos e o elefante", já utilizada por Johnson
(1958) anteriormente, com intuito semelhante.
Esta parábola, tão popular, refere-se às percepções de seis cegos
que pela primeira vez se deparam com um elefante. Cada um deles toca
uma região diferente do animal e obviamente obtém impressões
totalmente diversas sobre ele. Assim, discordam veementemente das
opiniões dos outros, achando inadequadas e até absurdas suas
deduções.
Absurdo é não entendermos que facetamos os tópicos para estudá-los
melhor, mas que o indivíduo precisa ser visualizado em sua
totalidade, deve ser integrado.
Um paciente olhado através da Sócio-Psicomotricidade Ramain-Thiers
poderá vivenciar a sensação de unicidade, de ser visto como ser
total, de estar numa verdadeira e profunda relação com alguém que se
dispõe a caminhar com ele por caminhos evitados, por becos
desconhecidos e misteriosos, ou vielas e atalhos que eram
considerados inexistentes. A meta final é a da redescoberta e
afirmação do caminho único, particular a cada um.
Foi uma jornada muito rica realizar este trabalho. Todas as pequenas
e inúmeras conclusões a que fui chegando durante a execução desta
monografia já foram explicitadas, seja no modo como agrupei as
idéias, seja na escolha das citações que efetuei, seja na relevância
e na ênfase que dei a um ou outro aspecto.
Considero válidas e coerentes todas as diversas vertentes da
Psicomotricidade em suas transformações. Assim, ratifico a
importância da Educação Física, da Reeducação Psicomotora, da
Educação Psicomotora, da Terapia Psicomotora e também, nos termos de
Levin, da Clínica Psicomotora. Cada uma delas tem seu alcance
próprio e específico, cabe ao terapeuta ou ao educador em questão
avaliar sua própria formação, seu cabedal de conhecimentos e as
necessidades, desejos e/ou limitações de seu paciente ou aluno.
A conclusão final é a da minha adesão à Sócio-Psicomotricidade
Ramain-Thiers, considerando-a a verdadeira resposta aos meus anseios
de integração da abordagem terapêutica, que pode encampar corpo /
mente / emoção / relacionamento social e, como reflexo desta
postura, propiciar a visão integrada e integrante de meu paciente.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS
1. CUNHA, Antônio G. Dicionário Etimológico Nova Fronteira. Rio de
Janeiro. Ed. Nova Fronteira. 1982.
2. JOHNSON, Wendell. Introduction: The six men and the stuttering.
In Stuttering: a Symposium, EINSENSON, Jon (ed). Harper & Row
Publishers. New York and Evanston. 1958
3. LE BOULCH, Jean. O desenvolvimento Psicomotor. Do nascimento até
6 anos. Porto Alegre. Artes Médicas. 1992. Tradução do original de
1981.
4. LE CAMUS, Jean. O corpo em discussão. Da reeducação psicomotora
às terapias de mediação corporal. Porto Alegre. Artes Médicas. 1986.
Tradução do original de 1984
5. LEVIN, Esteban. A clínica psicomotora. O corpo na linguagem.
Petrópollis. Editora Vozes. 1995. Tradução do original de 1991.
6. NIGRO-ROCHA, Eliana Maria. As rupturas na fala da criança
"fluente" e da criança "disfluente". Monografia de mestrado em
Linguística Aplicada.
PUC - São Paulo. 1989
7. RAMAIN, Simonne. Princípio Geral do Método Ramain. 1964 in
Caderno Ramain. Material de Leitura da Terceira Etapa. Cesir.1988
8. SEVERINO, Antonio J. Metodologia do Trabalho Científico. 20a.
edição. São Paulo, Cortez, 1996.
9. THIERS, Solange. Sócio-Psicomotricidade Ramain-Thiers. Uma
leitura emocional, corporal e social. São Paulo. Casa do Psicólogo.
1994
10. THIERS, Solange. Monografia in Teoria e Técnica Ramain-Thiers n.
3. Rio de Janeiro. Cesir. 1995. 3a. edição.
11. THIERS, Solange. A evolução histórica do Ramain e o Brasil in
Caderno Ramain. Material de Leitura da Segunda Etapa. Cesir. 1988
Veja informações mais gerais sobre este tópico emPsicomotricidade.
Todos os direitos reservados a Eliana Maria Nigro Rocha. A utilização dos dados aqui publicados está autorizada, desde que a fonte e autoria sejam citadas.